'Dois times': haitianos em Roraima celebram retorno do país à Copa mas dividem paixão com Brasil

  • 19/06/2026
(Foto: Reprodução)
Haitianos em Roraima celebram retorno do país à Copa mas dividem paixão com Brasil "É meu sonho, Haiti seguindo na copa e Brasil também", afirma o motorista de aplicativo Jeff Kelly Douezan, de 41 anos. A fala resume o sentimento de uma comunidade de haitianos estabelecidos no bairro Pricumã, zona Oeste de Boa Vista. Durante o Mundial, o grupo vive a alegria de ver o próprio país na competição após 52 anos, mas não deixa de lado o amor pelo Brasil. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp O Haiti ficou mais tempo fora da Copa do que Jeff tem de vida. Por isso, para ele, o cenário perfeito na competição é o sucesso das duas seleções. "Quero que o Haiti ganhe um, e o Brasil ganhe outro. E a gente fique com 4 pontos, e o Brasil fique com 4 pontos também, para que os dois passem. Seria minha alegria ver meus dois times". A competição trouxe uma emoção inédita para essa geração, pois o Haiti não disputava o Mundial desde 1974. Agora, a torcida se divide entre o país de origem e a nação que os acolheu. Jeff deixou a ilha caribenha rumo à Venezuela, mas a crise o trouxe para o Brasil há 14 anos. Ele se adaptou tão bem que já adotou a cultura roraimense. "Eu fico feliz de estar aqui no Brasil, é o país dos meus sonhos. Já tenho 14 anos aqui e aonde eu vou? Eu fico aqui, já virei 'negão macuxi'", brinca Jeff, em referência bem-humorada ao termo que se refere ao povo indígena de Roraima, mas também é usado informalmente como gentílico para quem nasce ou se estabelece no estado. Jeff Kelly Douezan, de 41 anos, mora no Brasil há 14 anos e trabalha como motorista. João Gabriel Leitão/g1 RR A união dos haitianos no bairro Pricumã nasceu a partir de uma rede de solidariedade que já dura mais de uma década. O microempreendedor Francknel Clairisier, o "Fran", de 37 anos, é um dos pilares da comunidade. "Meu coração ficou bem feliz e alegre por saber que o Brasil vai jogar contra o Haiti. É uma grande manifestação de nós haitianos aqui no Brasil e em qualquer país. É histórico", celebrou. O sentimento de pertencimento, no entanto, é dividido com muita gratidão. Fran chegou ao Brasil em 2015, após deixar o Haiti e passar pela Venezuela, também fugindo do cenário de crise. Hoje estabelecido no ramo de passagens aéreas, ele reflete o orgulho dos compatriotas em ver o país caribenho de volta ao principal palco do futebol. "Em 2022, 90% dos haitianos apoiaram o Brasil, porque os haitianos têm um amor pelo brasileiro. Agora que o Haiti classificou para a Copa do Mundo, todo mundo que ia ser Brasil vai apoiar o Haiti, porque é nossa nação, nosso país, nossa bandeira", explicou Fran. Francknel Clairisier, de 37 anos, atua em parceria com brasileira para ajudar outros imigrantes haitianos em Roraima. João Gabriel Leitão/g1 RR Rede de apoio voluntária A trajetória de estabilidade de Fran no Brasil se cruza com a da empresária brasileira Daphany Magalhães Júlio, de 39 anos. Os dois se conheceram em um momento de extrema vulnerabilidade, quando o haitiano chegou a viver em situação de rua. Ela o conheceu por meio de uma professora de francês e iniciou a amizade que evoluiu para a parceria social. Atuando de forma voluntária há 10 anos, a dupla ajuda novos imigrantes que chegam a Roraima a se estabelecerem. Enquanto Daphany articula o acesso a serviços básicos, como a inclusão de famílias em programas sociais e suporte em atendimentos hospitalares, Fran atua como intérprete para superar a barreira do idioma. Esse laço de gratidão se reflete diretamente na paixão pelo esporte. "Eles são muito apaixonados pelo futebol. O Haiti entra numa loucura quando o Brasil entra na Copa. Lá eles vestem a camisa e torcem. 90% dos haitianos no país torcem pelo nosso Brasil", relata Daphany. Comunidade haitiana em Roraima é estabelecida no bairro Pricumã através de rede de solidariedade. João Gabriel Leitão/g1 RR Haitianos em Roraima O impacto da rede de apoio ganha dimensão quando se observa o fluxo migratório da última década. Segundo dados do DataMigra, atualmente existem 361 haitianos com residência ativa em Roraima. Entenda 🔎: O Haiti enfrenta uma crise humanitária que começou com o devastador terremoto de 2010 e matou centenas de milhares de pessoas e deixou sequelas estruturais até hoje. A fragilidade do país foi intensificada com uma crise política e humanitária crescente. Nos últimos anos, gangues armadas dominaram grande parte do território, inclusive a capital, e a violência se tornou endêmica. Desde 2013, o estado registrou 32.881 entradas de cidadãos do Haiti. O auge ocorreu entre 2019 e 2020, com 20.131 e 10.543 registros, respectivamente. Nesses dois anos, Roraima foi a principal porta de entrada dessa população no Brasil. Para quem acompanha essa vivência de perto, o atual momento do futebol é, na verdade, a celebração de uma vitória coletiva. "Nesses 10 anos de luta com eles, ter o privilégio de assistir a um jogo deles torcendo pelo Brasil na Copa passada foi incrível, pude ver o amor deles e vivenciar a história. Tá uma loucura, todo mundo desenfreado, feliz demais", finalizou a brasileira. 🏆 O Haiti é um dos adversários do Brasil no Grupo C desta edição da Copa do Mundo. Realizada em três países — Estados Unidos, México e Canadá, pela primeira vez, 48 seleções disputam a taça mais cobiçada do futebol. O Brasil busca o hexa, enquanto o país caribenho busca avançar pela primeira vez à fase eliminatória da competição. Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

FONTE: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/06/19/dois-times-haitianos-em-roraima-celebram-retorno-do-pais-a-copa-mas-dividem-paixao-com-brasil.ghtml


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